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*Má Peters*
Teste da Violência Obstétrica - Dia Internacional da Mulher - Blogagem Coletiva
Sobre mulheres, partos e liberdade: os bastidores do parto

Este post faz parte de uma blogagem coletiva que ocorre hoje, dia 08 de março, o Dia Internacional da Mulher! Nele eu falo um pouco dos bastidores do parto do Miguel mostrando as dificuldades que passei e que, acredito, muitas mulheres passem à sua maneira, na busca pelo parto “perfeito”, onde a autonomia da mulher é ameaçada principalmente pela mentalidade de uma sociedade movida pelo medo e pela dinamicidade do dia-a-dia dos profissionais de saúde de forma direta ou indireta e sua liberdade de escolha é colocada em cheque, quando não suprimida brutalmente.

Quando decidi ter o Miguel – hoje com 5 meses e 17 dias – eu tinha apenas uma certeza: eu teria um filho. Para ser mais exata, minha certeza era: eu e o Dudu teríamos um filho! Seríamos, assim, uma família! Preciso assumir que sou uma pessoa que não se planeja muito e um tanto desligada, então, mesmo depois dessa decisão de ter um filho e se tornar uma família, a gente (digamos que eu e o Dudu tenhamos um ritmo semelhante...) não se desesperou, se descabelou e enlouqueceu correndo atrás de coisas “básicas” ao decidir se tornar uma família, ainda mais quando até então não se mora junto e ainda depende (relativamente, pois há algum tempo já era uma bolsista e recreacionista nas horas “vagas”) de seus pais. Com o apoio e auxílio de nossos familiares começamos nossa busca pelo item material mais importante de uma nova família (quando se pretende romper os laços físicos com nossos progenitores, o que nem sempre é possível ou nem sempre acontece): nosso lar. Por muito, MUITO tempo, esse foi nosso principal foco: encontrar um apartamento.

É óbvio (ou não tão óbvio assim) que também estávamos curtindo a gravidez e realizando o tão recomendado pré-natal – com uma médica de meu convênio médico. Não era uma médica da qual eu era íntima, mas já havia feito uma consulta com ela uns anos antes. Uma médica, inclusive, renomada no mundo acadêmico e que tinha um álbum de fotos de vários bebês que, suponho, ela tenha feito o parto. Me sinto obrigada a assumir que minha relação com os médicos (em geral), enquanto paciente, sempre me foi muito delicada... o que também sempre atribuí ao fato de “meu” médico ser homeopata, portanto, desde criança faço “tratamento” homeopático e isso sempre fez com que os outros médicos respondessem a essa informação com desdém, além de ignorar minha relação com a homeopatia e me receitarem remédios alopáticos – que eu provavelmente não tomei – sem maiores explicações ou alternativas. Ou seja, com essa médica não foi diferente. Desde quando fui procurá-la, na primeira consulta na qual se iniciaria o pré-natal, eu já queria não estar lá... mas era a única médica do convênio que eu conhecia, então, assim seria... Ela, particularmente, não foi nada atenciosa e, se posso dizer, foi quase totalmente desinteressada, a não ser pelas respostas dadas às perguntas específicas do seu roteiro de primeira consulta do pré-natal, por exemplo sobre as mil e uma doenças que eu poderia ter tido. Me lembro bem que me tornar gestante não me deu, automaticamente, nenhum conhecimento que eu ainda não tinha, portanto não fui simplesmente iluminada sobre o que ou como seria realizado um pré-natal ou o processo de gestação, e lembro ainda que na minha primeira consulta eu disse que não sabia se eu precisava fazer ou deixar de fazer alguma coisa, me alimentar de algum outro jeito, mudar a rotina, etc, e ela simplesmente não respondeu nada... quando voltei após o primeiro ultrassom, o qual foi super difícil de agendar, tinham se passado dois meses, e a médica me deu um sermão, dizendo que eu deveria ter ido no mês passado, afinal no acompanhamento de pré-natal tem consulta todos os meses. Ela foi enfática sobre ter passado o tempo exato (que é em alguma semana específica da gravidez) de realizar um exame que veria se o bebê teria problemas congênitos, e então nunca mais eu poderia saber (“a tempo”?) se ele seria um bebê saudável. Eu engoli o choro no consultório... não que eu estivesse chorando porque não sabia se meu bebê teria uma doença terrível, pelo que eu sentia e já sabia ele era um lindo pedacinho de carne se formando. Mas eu me senti mal com a forma que ela me tratou.. não sei qual seria a palavra certa pra descrever o que eu senti naquele momento, mas aquela mulher.. eu queria sair de lá correndo e nunca mais precisar voltar... Se eu imaginasse que algo pudesse fazer mal ao meu bebê, eu nunca tomaria determinada atitude, e se eu soubesse que eu tinha que fazer determinado exame, eu teria feito, e se eu soubesse que as consultas do pré-natal eram mensais, eu teria ido, o ponto é que EU NÃO SABIA, ela nunca tinha me falado isso. Eu mostrei que estava perdida na consulta anterior e ela não falou nada, não me deu nenhuma dica, não perguntou sobre meus hábitos, não se interessou por nada e não me disse que eu deveria voltar em um mês... e depois que eu não voltei ela me apavorou, fez eu me sentir culpada, um lixo... Lembro também de uma outra consulta, eu tinha tido dores ma barriga, havia ficado um tanto preocupada, mas havia ligado pro meu homeopata, contado em detalhes o que sentia, ele havia dito para e ligar imediatamente sempre que sentisse qualquer coisa na barriga, só pra ele ver o que é e poder dizer que não era nada com o que se preocupar... quando contei da dor na consulta com a obstetra, aquela que deveria se preocupar com meu bebê, bem, ela simplesmente me mandou tomar buscopan. Eu estava tentando descrever a dor para ela saber exatamente qual o tipo de dor era e ela não quis ouvir, me mandou tomar buscopan e pronto. E se um dia eu tivesse uma dor preocupante? Como ela saberia que não poderia ser algo ruim com o bebê? Se para qualquer dor, não importa qual fosse, eu tomasse buscopan? O fim da picada mesmo foi um dia em que eu estava cuidando de minha sobrinha de 1 ano e meio (na época) e minha irmã ficou presa no médico por causa de um machucado no pé e eu acabei levando minha sobrinha pra consulta. Não que obstetras devam gostar de crianças, mas minha sobrinha era só um bebê grandinho, e obstetras não precisam gostar de bebês, mas eu também não preciso gostar de uma obstetra que não gostam de bebês... Enfim, minha sobrinha tava super animada brincando com umas moedinhas pelo consultório e a médica queria que ela ficasse sozinha na sala de espera enquanto ficávamos (eu e o “titio” Eduardo) na consulta. Sem falar numa cena – bem engraçada! – em que a médica tava falando alguma coisa e minha sobrinha começou a querer falar comigo e a tal médica fechou os olhos de tão nervosa e continuou falando de olhos fechados com uma cara muito brava e como se nada estivesse acontecendo. Na verdade menti, o fim da picada foi numa outra consulta: minha mãe foi comigo pra consulta e meu namorado iria encontrar com a gente lá. O que aconteceu foi que ele nunca chegou e nem ligou pra avisar. Eu, que já odiava ir à médica e precisava dele do meu lado apertando minha mão, fiquei puta com ele durante toda a consulta e não consegui falar sobre o parto – que tínhamos nos planejado para conversar sobre isso naquele dia. Não estava me agüentando de raiva e quando descemos para ir embora encontro ele na entrada do prédio, ele tinha chegado antes mesmo da consulta começar mas a secretária tinha dito para ele não subir porquê não cabia na sala de espera e disse que se ele subisse ia mandar minha mãe embora. É, acho que esse foi o fim da picada. Ah, é claro, mais do que esse acompanhamento amedrontador, minha médica-acadêmica-exemplar fazia parto normal se não tivesse nenhum problema e não daria anestesia se eu não quisesse, mas TODAS suas pacientes de parto normal pediram anestesia na hora do “vamo vê”, e bem a episiotomia é algo preventivo que, se o bebê estiver virado para um lado x,  não da pra evitar... por essas e outras é que eu já sabia, desde o início, que não seria ela na hora do vamo vê...

Focada nas transformações materiais de minha vida e sem ter dúvidas sobre querer ter um bebê da forma mais natural possível, porém, sem lutar contra minha médica medicalizante, os meses foram se passando... Eu sabia que não faria meu parto com ela, mas não estava disposta o suficiente pra encontrar outros caminhos até então... quando as outras questões foram se resolvendo, a gestação continuando, começou a fazer muito mais sentido pra mim me preocupar, de fato, com o tal dia do nascimento. Seguimos a dica de um amigo e entramos em contato com uma nova médica – fazia parto humanizado e era doce e atenciosa – pelo menos foi o que ouvimos dizer. Na primeira vez que liguei para ela, sem nem me conhecer, ela foi tão simpática que quase achei que ela estava me confundindo com outra pessoa. O problema dela para mim era que ela não era de convênio nenhum, ou seja, muita areia pro nosso caminhãozinho de companheiros-que-vão-morar-juntos-e-não-tem-onde-cair-morto, na verdade não temos nenhum caminhãozinho ou qualquer outro meio de transporte próprio, então ela era muita areia, ponto. Não podendo nos dar ao luxo de pagar muita grana ou qualquer grana que fosse num parto (já que tínhamos a opção convênio) colocamos a médica na caixinha dos sonhos impossíveis e começamos a procurar outras alternativas que nos levassem pelo caminho da “naturalidade” – entre aspas porquê, como sabem os que já procuraram, não se encontram médicos desse tipo tão naturalmente... Tentei inclusive outras médicas do convênio, fui numa que era simpática e atenciosa e respondeu cada coisinha idiota que eu tinha pra perguntar, foi ótimo! Me fez perceber que nem todos os médicos de convênio precisam ser, hmmm, megeras! (com o perdão da falta de concordância) De qualquer forma, ela ser boazinha e gentil não mudava o fato de que ela não fazia parto natural pois só trabalha com horários fixos e ou seria cesária ou parto com o plantonista do hospital do momento. Para aqueles que desacreditam totalmente no mundo e nos serviços de saúde, fica a dica: há muitas formas de encarar o parto naturalmente no serviço público de saúde, a questão é que tem que procurar bem e aceitar os contras que acompanham os tais prós... Sim, encontramos alternativas interessantes, não, elas não pareceram boas o suficiente para mim naquele momento e o mais importante de tudo: eu estava apaixonada pela “médica do telefone”. Dizem que a primeira impressão é a que fica, e ficou mesmo! Depois de muito procurar eu só conseguia me imaginar no momento do parto com aquela voz perto de mim (é, tudo que eu conhecia dela era sua voz).

Eu estava decidida pela naturalidade do parto, eu já tinha gostado de uma médica, então porquê não ficava com ela e pronto? Bom, parece fácil essa tomada de decisão, mas REALMENTE não tínhamos esse dinheiro. Não podemos ignorar que há alguns benefícios e, pior, alguns direitos, que só o dinheiro pode assegurar... Sem querer deixar ao entendimento do leitor, não, eu não estou querendo demonstrar que o dinheiro é o maior ou um dos maiores bens que uma pessoa pode ter, eu estou querendo chamar atenção para o absurdo dos direitos serem garantidos por um bem material externo ou simbólico e não por uma condição intrínseca do ser-humano: ser humano. E, para ser mais sincera, se não tivéssemos condições nenhuma de pagar, nem dividindo em 100 vezes, nem pagando 10 reais por mês, nem com dinheiro que ganhamos de amigos e parentes, não poderíamos ter optado por este parto humanizado. Mas a dúvida, decidir por isto ou por aquilo, aceitar ter um parto provavelmente natural, tomar remédio se sentisse dor sem nenhuma preocupação com outras formas de lidar com o parto para que a medicação fosse evitada, ter meu bebê tratado como algo sujo e perigoso que precisa ser tirado de mim, limpado e avaliado antes que eu pudesse pegar no colo – talvez eu tenha pego pesado nessa parte... – mas a dúvida era: se eu me endividar, se me comprometer a pagar algo com um dinheiro que eu não tenho e estou torcendo pra conseguir sem poder pensar no “e se não conseguir?”, era se seria uma escolha legítima ou se era mais um desejo consumista e plenamente descartável, um mimo daqueles que quem tem dinheiro paga e quem não tem se mata pra poder pagar e na verdade não vale tudo isso... Não estou querendo entrar aqui no mérito do valor que os médicos, enfermeiros, anestesistas, etc, cobram por seus serviços ou nos valores que quaisquer profissionais cobram por seus serviços, estou querendo mostrar que a minha dúvida era se valia a pena gastas um dinheiro importante pra eu me sentir segura e poder oferecer pro me futuro filho-nascido um mundo aconchegante e com o menor número de intervenções invasivas. E a resposta é: é óbvio que vale a pena! E é tão bom que eu possa ter essa resposta, porque outras pessoas que não puderam contar com os auxílios que eu tive não poderiam tê-la dado. O que me fez decidir pela médica do telefone, a médica dos meus sonhos e que existia na vida real foi a minha segurança! É triste pensar que muitas mulheres desejam um parto natural e não o têm porque seus médicos de “última hora” perceberam que o bebê estava em risco.  E o mais triste disso tudo é saber que a grande maioria desses médicos não esperou até a última hora e que os riscos eram os riscos habituais de um bebê que nasce naturalmente pela vagina da mãe como ocorre a bons milhares de anos... isso somando-se à urgência de partos agendados e com horário pra começar e terminar, o que facilita um tanto a vida dos médicos. Nesse último parágrafo corri o risco (e creio, acertei em cheio) de ser um pouco mais ofensiva do que gostaria e generalizar uma classe profissional pelo trabalho mal feito de alguns. Me desculpem, portanto, os médicos que não se encaixam nessa minha visão preconceituosa e não tão ingênua assim. Eu não saberia colocar aqui os dados exatos (mas achei esse  pdf que pareceu bem interessante e traz alguns dados: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/livro_parto_web.pdf) ,mas sei que primeiro: muitas mulheres gostariam do parto natural e os médicos acabam indicando cesárias, segundo: há muito mais cesárias do que seria necessário, assim como outras intervenções como epsiotomia ou anestesia, terceiro: em nossa sociedade movida pelo medo e pela idéia de que ser feliz é não ter problemas ou sentir dores, tudo que se fala é sobre a dor do parto e não sobre, por exemplo, a força do parto ou ainda sobre como a escolha pela forma do parto ou das intervenções que o bebê sofrerá antes, durante e após nascer fazem parte da vivência do bebê no mundo que pode ser sentida de formas melhores ou piores a depender de nossas escolhas.

Agora, voltando a falar da minha escolha por segurança: no momento do parto eu estaria vulnerável e obviamente deveria confiar em meu obstetra e fazer o que ele dissesse ser o melhor para o meu filho, portanto, deveria ser alguém que eu confiasse a ponto de se a pessoa disser “não tem jeito, tem que ser cesária”, eu saberia que DE FATO a cesária seria necessária e seria a melhor opção pro nascimento de meu filho. O que destaco disso: eu precisava confiar nesse tal médico, e era na médica do telefone que eu já confiava, mesmo sem conhecê-la de verdade. Quando decidimos conhecê-la eu já sabia que seria ela, eu sabia que iria gostar dela... é claro que fiquei com o maior frio na barriga: e se eu me decepcionasse? E se ela não fosse tudo aquilo que eu estava imaginando? E se eu não fosse com a cara dela (apesar de gostar de sua voz e seu jeito de falar comigo)? E se ela ignorasse meus medos e minhas dúvidas? E se? E se? E se? Bom, me sinto obrigada a revelar que nenhum desses medos se fez realidade e sim, era ela! Foi ela! A médica que eu não achei que existisse, que respeitava minhas vontades, que respeitou meu bebê, que usou todo o conhecimento que a medicina lhe propiciou para analisar a situação e garantir o meu direito de escolher e de dar a vida de forma humanamente natural.

Intencionalmente não quis deixar clara a minha opinião sobre a forma de parto que eu defendo, mesmo tendo optado pelo parto humanizado. Fiz isso não porque eu não acredite que há uma forma mais aconchegando do bebê vir ao mundo – eu acho que tem e acho que é quando ele pode escolher o momento que quer nascer, pode se ajeitar no útero da mamãe e começar o trabalho de parto junto do corpo da mãe, trabalho esse que vai marcando para o bebê uma grande transformação, a mudança de um mundo fechado e quentinho em que o alimento simplesmente o nutre para um mundo amplo, diverso e novo, em que ele é obrigado a se manifestar e buscar o que necessita e deseja... – ou seja, eu acho sim que um parto natural tem qualidades inestimáveis, mas eu não defendo uma forma de parto e sim uma idéia, um ideal de parto: o que for melhor para o bebê e sua mãe. Acredito também que a escolha por uma forma de parto também está ligada a outros fatores que só a mulher que tem um filho no ventre a nascer pode considerar, e deve considerar no momento de fazer sua escolha. Eu acredito que nem o bebê, nem o marido, nem o médico podem escolher pela mulher essa vivência, que ocorre sobretudo no seu corpo, na sua experiência. Não que eu ache também que o pai do bebê não deva ser considerado na escolha, acho sim que ele deve participar das decisões a serem tomadas, deve ter participação nas conversas, suas opiniões consideradas, de forma a serem acolhidas pela mulher, mas não simplesmente aceitas. A minha crítica, nesse sentido, é de que a sociedade, o serviço de saúde, os médicos.. deveriam oferecer à mulher essa outra forma de pensar (que não a habitual) que considera a vivência do bebê durante o parto, das possibilidades que uma mulher tem de viver um parto que tenha dor, mas que não seja sofrimento, que seja amor, alegria, que seja força... e então a mulher, nas suas possibilidades, considerando todas estas coisas que não só ela e não só o medo e a dor, possa ter a liberdade e a autonomia de escolher o parto que seja o melhor para ela e seu filho. 

Ah! Na hora do vamo vê, o Mig nasceu dentro de uma banheira quentinha e foi recebido da forma menos invasiva possível graças ao seu maravilhoso pediatra(o que é história para outro post) e a mamãe teve o parto mais natural possível e sem intervenções médicas! Pra quem se interessa, o link do post do parto: http://www.nascendo-uma-mamae.blogspot.com/search/label/sobre%20o%20parir%20e%20o%20nascer




Abaixo um teste que se propõe a avaliar o atendimento recebido no momento do parto e verificar se ocorreu algum tipo de violência. Quem puder e quiser, participe!



*Má Peters*


Há pouco mais de duas semanas minha irmã (que tem uma filha de 2 anos) me disse gostar muito de ler um blog de uma mãe – contava da vida dela e falava sobre todos os temas que poderiam interessar a mães recentes, de longa data, jovens, velhas, maduras, experientes, perdidas, loucas... – e  me passou. Eu, mãe de primeira viagem, novata no ramo da maternidade, inexperiente como tal e enlouquecida em certos momentos, como quem não quer nada e não tem o que fazer (além de ser mãe-cuidadora 25h/dia e ter que cuidar da casa e de mim...), entrei no tal do blog. Comecei a ler um post, depois outro, comecei a olhar posts antigos, me vi escolhendo temas...nesse meio tempo dei inúmeras gargalhadas..e quando percebi: estava viciada! Li quase todos os arquivos!! Entrei nos blogs amigos... nos de mães, nos de pais... li publicações, comentários, fóruns... os dias foram passando e sem me conter, perpetuei o meu bisbilhotar pelo blogs alheios... Antes de adentrar nesse novo e fantástico mundo-dos-blogs, eu já havia começado a me viciar em sites de fraldas de pano e brinquedos (olhando o mesmo site, lendo as mesmas informações e traçando planos bem parecidos todos os dias), mas essa nova experiência superou todas as (poucas) expectativas que eu tinha a respeito das mamães-internautas (e papais também) e abriu meus olhos para as ricas trocas que posts, comentários e fóruns poderiam trazer! Não cheguei a comentar e me inserir diretamente nas discussões, pois apesar de sentir vontade ainda estava muito tímida, como alguém que chega numa festa da conhecida-de-um-conhecido-de-um-amigo-que-te-convidou-e-não-compareceu e não conhece ninguém (além de ler também posts muito antigos e não saber se faria sentido comentar neles...). Mas eu tinha muito a dizer, queria compartilhar experiências dessa tão nova empreitada da minha vida (que vai durar para todo o sempre), queria contribuir, queria conhecer gente em situação semelhante à minha, fazer novos amigos... foi aí que resolvi criar esse blog! (e me aguardem, pois agora que estou aqui, a chuva de comentários começa por aí...)



Quando nasce um filho, nasce uma mãe



Vi essa frase pela primeira vez numa parede perto da minha ex-casa na Vila Madalena (São Paulo) há uns anos atrás. Achei bonita. Achei poética. Achei que realmente estava cheia de significado. Eu achava que de fato ao nascer um filho, nasceria uma mãe: havendo o filho, a pessoa estaria vivendo uma nova experiência, adentrando numa realidade ainda desconhecida e teria que aprender a se colocar nessa realidade, viver essas novas necessidades, nascendo assim o ser mãe...


 Tenho um namorado. Um belo dia descobrimos que estávamos grávidos. Inesperado, é verdade! Um misto de alegria e susto. Uma grande surpresa – prevalecendo a surpresa-boa! Me lembrei daquela frase que um dia tinha visto num muro... inclusive cheguei a lê-la tantas outras vezes ainda naquele muro... Uma simples frase, naquele tempo uma nova realidade posta em minha vida. Adquiriu um novo sentido, muito mais próximo, mais palpável. Naquele tempo percebi que era menos uma questão de racionalizar sobre o conteúdo da frase, era uma realidade imposta. Mas eu ainda estava na gravidez. Um filho “nascido” dentro da barriga, ainda abstrato, ainda pura sensação, quase que meramente corporal. Havia nascido uma gravidez, e então uma grávida.

 

20 de setembro de 2011. Cinco horas da manhã. Acordo. Alguma coisa está diferente (errada?). Sensação de “não consigo segurar o xixi”. Corro pro banheiro. Fiz xixi. Tudo bem. Então volto a dormir. Mal pego no sono e sinto novamente aquela sensação. “Como assim? Acabei de fazer xixi!” Corro pro banheiro. Nada. Percebo que um “liquidinho”, pouco, lentamente, se arrisca a correr pela minha perna. “Diacho, o que será isso que atrapalha o soninho da madrugada?” Numa negação dos acontecimentos corporais daquele momento acordo meu namorado (Eduardo). Eu tento, na verdade, mas ele não quer ser acordado. Não me dá bola. “Volta a dormir”, ele diz. Então eu ligo para minha mãe (nessas horas só a mãe mesmo!). “Você acha que estourou a bolsa?”, ela diz. “Não, é muito cedo, acho que nem deu 37 semanas ainda...” “Liga pra sua médica” ... Eu ligo pra médica*, conto o ocorrido nos pormenores... Ela: “Hm... Pode ser que tenha rompido a bolsa, pode ser que não. De qualquer forma, se tiver rompido a bolsa ainda é cedo, volta a dormir, quando acordar de novo, me liga.” Me surpreende a força de minha própria negação, tranqüilamente: “Rompeu a bolsa? Mas será? Não está na hora ainda... Acho que ele nem tem 37 semanas...” Alguns blábláblás depois, desligamos o telefone e eu muito contrariada resolvo voltar a dormir. Maaaaas, percebo que agora tem um “sanguinho”. A médica havia me dito que se tivesse sangue era bem provável que tivesse rompido a bolsa. Imediatamente ligo de volta: “Agora tem sangue, então rompeu?” “Rompeu!” Como se eu não soubesse, e sentindo a tranqüilidade (letargia?) se esvaindo do meu corpinho, faço a pergunta óbvia e quase estúpida: “O que acontece agora? Ele vai nascer? Vai nascer hoje? Ta nascendo?” E com uma calma invejável ela responde “Sim”. Sim? Calma invejável? Ela é maluca? Vai nascer! Tá nascendo. Está nasceeeendo!!! Pronto, agora sinto o desespero tomando conta de TODO o meu ser! “Não pode ser, não ta na hora, ELE NEM TEM 37 SEMANAS!!!” “Ele não tem 37 semanas? Mas você lembra que refizemos as contas e vimos que na verdade ele estava com..........” Já tínhamos começado a conversa na ligação anterior, mas agora precisávamos tirar essa história a limpo. Papo vai, papo vem: primeiro, ela tinha confundido de “Marcela” – uma outra tinha feito um exame no dia anterior (como eu!) e ido numa consulta, elas achavam que ela estava de 36 semanas (como eu estava achando!) mas era mais; percebi que eu não era a tal Marcela e a tal Marcela não era eu quando ela fez referência ao primeiro ultrassom (ela nunca viu o primeiro ultrassom! Eu estava com outra médica na época e o dito cujo se perdeu na bagunça da mudança de casa.). Segundo: refizemos as contas do meu bebê, 37 semanas e 2 dias, UFA! Então: “Mas pode ficar tranqüila, voltar a dormir... porque ainda vai demorar” Voltar a dormir? Voltar A DORMIR????? Como? Ela estava realmente louca! Como alguém pode voltar a dormir sabendo que o filho ta NASCEEEENDO? Desligamos novamente o telefone, acordei meu namorado, falei (quase em desespero) “Rompeu a bolsa. Tá nascendo.” “O que a médica falou?” “Ela falou pra eu voltar a dormir! Você acredita? Como é que eu vou voltar a dormir????” “Ah...então vamos voltar a dormir...” É, alguém pode voltar a dormir sabendo que o filho está nascendo. Mas não eu. Eu não podia. Estava com siricutico. Mal conseguia ficar sem andar de um lado pro outro, quanto mais deitar na cama e ainda voltar a dormir. Não, não dava! Mas, ele realmente queria voltar a dormir. Deitei na cama e tentei relaxar... falava alguma coisa e esperava uma conversa, mas tava mais pra monólogo mesmo... Não durou muito, meu namorado começou a se irritar porque eu não deixava ele dormir. Então tive que me contentar em conversar comigo mesma e sem som! (homens, hunf!) Minha agitação vinha do cerne da minha existência, profunda, e se espalhava pela carne...fui pro chuveiro. Não demorou, meu namorado chega: “Vim ficar com você, não te deixaria sozinha numa hora dessas...” (meu homem!)  Água quente caindo... Esperei o mais que pude. “Chega!” A tal da “coliquinha” que mais parecia uma pressão sobre meu corpo estava começando a aumentar, a gerar um certo incômodo, um incômodo maior, um grande incômodo. Saí do banho, liguei para a doula*, agora sentindo o que eu já poderia denominar de “contração”. Obviamente, na minha desorganização e por ter mudado de médica no final da gravidez, não cheguei de fato a conhecer a doula (que fazia parte da equipe da médica). De qualquer forma, por algum motivo que não faço idéia de qual seja (meu namorado quem falou com ela), não entendi na confusão do momento e sequer me lembro agora, ela não podia me acompanhar. Ligamos para outra doula, que eu conhecia menos ainda e ela se preparou para vir pra cá. Nesse meio tempo, liguei para meu pai – o combinado era de que ele me levasse para o hospital quando “chegasse a hora”. “Oi pai, te acordei? É que rompeu a bolsa e estou em trabalho de parto, só queria te avisar.” “A bolsa estourou??? Tô indo pra í agora!” D-E-S-E-S-P-E-R-O! Até entrarmos em contato a doula eu estava num ritmo a mil por hora, andava de um lado pro outro, não respirava, não parava, tinha uns ataquezinhos (quando vinha a contração), joguei umas “coisinhas” no chão (exemplo: “Tô com fome”, Dudu me deu uma banana, mordi um pedaço, veio a contração, joguei a banana sabe Deus lá pra onde!), apertava/beliscava/mordia o Eduardo (“Aperta minha mão amor.” “Não” e lá se foi uma mordida no braço, um apertão na barriga...).  Quando o Eduardo estava com ela no telefone eu ouvi ela perguntando pra ele: “E como ela ta? Tranqüila?” “Na verdade não, fica andando de um lado pro outro......” “Fala pra ela respirar fundo...” Foi essa frase! Essa frase mudou muita coisa! “Fala pra ela respirar fundo”, ela havia dito. Minha mãe é professora de yoga, fiz yoga desde pequena. Hoje não faço mais, é verdade, mas durante a gravidez comecei a fazer “yoga para gestantes”. No momento em que ouvi a doula dizer aquele frase (através do telefone enquanto ela conversava com o Eduardo, nem comigo era!) parei e pensei: “o que que eu to fazendo? Anos e anos aprendendo a respirar profundamente, relaxar, sentir meu corpo... e agora que chegou a hora de usar tudo o que sei  fico andando de um lado pro outro igual "barata tonta!” A partir deste momento então comecei a me concentrar em minha respiração. Muita concentração! Percebi que se eu respirasse profundamente e tentasse ao máximo relaxar no momento da não-contração, quando ela chegasse eu conseguia segurar mais, conseguia não sair destruindo tudo, conter meu corpitcho e assim o “efeito” da dor seria “menor”. Tudo isso pra conta que, quando liguei para meu pai, ele ficou imediatamente mais desesperado do que eu tinha estado até então, e eu havia acabado de começar a me auto-acalmar... ou seja, não queria de jeito nenhum que ele viesse pra cá, ele ia me desesperar mais ainda! Não, não, não. Tentei explicar pra ele que ainda não precisava ir para o hospital, que estava em contato com a médica e que “estava tudo sob controle”, mas ele não queria saber muito, ir vir de qualquer jeito – e desligou o telefone. Agora sim, D-E-S-E-S-P-E-R-O! Liguei de volta e passei a bola (o telefone) pro Eduardo, dizendo: “Fala o que você quiser pra ele, fala que as contrações voltaram a espaçar, que não to em trabalho de parto, o QUE QUISER, mas faz ele com que ele não venha pra cá!" Pois é, entrei nesse movimento introspectivo, eu estava em trabalho de parto! O interessante é que daí em diante me foquei no meu corpo, na contração, na dor e fiquei vivendo isso... o mundo a meu redor era um mero acessório... eu estava na fase “grávida em trabalho de parto”.

Antes da doula chegar em casa ficávamos em contato com ela e com a médica, estávamos medindo os tempos das contrações... desde que havia saído do banho a evolução das contrações foi muito rápida, começou a ficar mais intensa e logo estava de 6 em 6 minutos. Para ser mais exata, a primeira vez que medimos deu 6 minutos, em seguida 5, depois 4, e aí 3, chegou no 2 e voltava pra 6. Não tive aquelas contrações regulares que costumam aparecer nos filmes... variava de 6 a 2 e assim continuou até praticamente a hora do “está nascendo”. Aliás, o “trabalho de parto” todo não pareceu como na TV – não jorrou sangue pelo chão, não foi um Deus-nos-acuda, não foi nada visivelmente muito chocante... foi intenso, mas meio que internamente, sabe? Voltando...Precisávamos saber se estava próximo ao momento de ir para o hospital (trabalhávamos com aquela idéia de ir na “última hora” – mais próximo do nascimento de fato) pois meu pai que iria nos levar, então perguntamos para a doula se ela achava que ele já podia vir (mas fui enfática quanto ao fato de não querer que ele chegasse e ficasse esperando muito tempo aqui em casa). Ela havia dito que ainda não precisava, que era cedo. Se não me engano por volta de 9 horas, ou quase isso, ou qualquer outra hora porque eu realmente não fiquei olhando no relógio...ela chega! Assim que entrou em casa senti uma paz se espalhar pelo ambiente, eu já estava mais “calma” e a chegada dela só reforçou esse meu lado da versão “em trabalho de parto”. Eu ainda não a conhecia, mas nem pareceu... Um doce de pessoa! (nada de infantilizações aqui, mas se vocês a conhecessem também a achariam um doce) Ela chegou mediu as contrações, viu a dilatação. Agora vou relatar o que eu senti dos fatos que se seguiram: discretamente ela foi para o quarto e ligou para a médica, falou alguma coisa que não ouvimos (nem eu nem o Dudu), com aquela tranqüilidade que só ela poderia ter, chegou para nós e disse: “Acho que podemos ir”. Como assim PODEMOS IR??? Não era cedo demais? Não podia esperar mais tempo pra chamar meu papi pra vir me levar? Ah não! Só podia ter alguma coisa errada! Tava pra nascer!!!!!!! Quase o desespero volta a tomar conta desse corpinho que tanto fez pra lhe dar um “chega pra lá”... mas, a doula estava ali naquela (aparente) tranqüilidade e eu estava respirando profundamente, então, só podia “dar tudo certo”. Ela também disse que estava de carro e poderia nos levar e nós (eu será que fui EU?) preferimos assim e falamos pro papi nos encontrar no hospital. Acontece que moramos em Perdizes... e o hospital é no Itaim Bibi  e ninguém sabia um caminho “alternativo” pra chegar até lá E estava no horário do “rush”. Contrações + “acho que podemor ir” + horário do rush è só pode gerar desespero!!! Mas calma, eu sou forte, minha respiração dá conta de mais essa também... e assim continua minha luta interna entre relaxar e desesperar... Obviamente o carro não é o lugar mais confortável do mundo para se ter contrações – você não tem mobilidade nenhuma, não pode ficar andando, não pode ficar se agachando e levantando, se gritar muito tadinhos dos ouvidos da galera (não que isso tenha me impedido de soltar uns berrinhos) e enfim, ninguém quer que o filho nasça no carro por causa do trânsito em São Paulo! Desde que a doula havia chegado eu praticamente já não ficava mais de olhos abertos: com eles fechados minha “força de relaxamento” era muito maior, dava mais conta do recado. No carro não foi diferente, raras vezes abria os olhos, mesmo assim, não me atrevi a olhar pela janela, afinal eu já estava sentindo o trânsito, sentindo o carro muitas vezes parado, sentindo – apesar da tranqüilidade aparente – o pé da doula no acelerador. Uma cena: há uma ambulância ao lado, a doula diz que uma vez já conseguiu auxilio de uma ambulância-que-estava-passando-por-aí para abrir passagem pra ela e a guiar até o hospital num parto de outra pessoa. Ela então decide averiguar se isso seria possível naquele momento (seria preciso que não houve um “paciente” dentro dela). Ela abre o vidro: “Oi, bom dia, eu estou aqui com uma grávida, ela está em trabalho de parto, eu gostaria de saber se vocês poderiam acompanhar a gente até o hospital porque está muito trânsito, né?” Não ouvi a resposta, mas a doula disse “Ah, claro, eu entendo, muito obrigada...”. Isso. Ponto final. Calmaria que só! Até parecia que estávamos num domingo ensolarado a caminho do parque pra fazer piquenique, com uma cesta cheia de guloseimas e queríamos comprar mais alguma coisa só pra constar, mas tinha acabado. Aliás, nessa situação do piquenique no parque acredito que muitas pessoas teriam ficados mais irritadas que ela... Não foi ruim não, minha gente! Foi ótimo! Foi perfeito!  Aquela tranqüilidade que não acabava... lembrem-se de quererem alguém assim por perto na hora do “vamo ver”! Outra cena (esta não poderia faltar): A doula diz “lembre-se de, se tiver vontade de fazer força, não fazer”. Pronto, deu vontade de fazer força! Marcela em concentração master, maior do que todas as outras, “não posso fazer força... não quero que meu filho nasça no carro!!!” Eduardo (por ironia do destino) neste exato momento diz: “Eu to aqui com você, força amor!” Um grito: “NÃO FALA ESSA PALAVRA!” Passando a contração, peso na consciência, ele não queria que fizesse força, mas que eu fosse forte naquele momento... eu sabia disso! Mas não importava, naquele momento aquela palavra estava (ou pelo menos deveria estar) proibida! O “peso na consciência” foi bastante presente nesse bafafá todo, quando a contração vinha às vezes eu gritava alguma coisa que não devia pra ele, ou o ignorava, ou fazia cara feia, ou sei lá... e então a contração passava e a chuva de “desculpa” começava. Ainda bem que ele é ele, essa pessoa maravilhosa que eu escolhi e me escolheu, pois ele sempre entendeu que às vezes era a contração que falava através de mim... não ficou bravo, não ficou magoado... se manteve firme e forte ao meu lado!

Chegamos no hospital. Encontramos minha médica. Entramos nula salinha para ela medir as contrações e a dilatação. Em seguida subimos para a sala de parto. Que sala! Enorme, espaçosa, com umas luzinhas coloridas como se fossem estrelas no céu (apenas buraquinhos no teto, nada de lâmpadas fortes). Não que eu tenha reparado nisso naquele momento, eu estava muito focada no meu mundo interno para perceber esses meros detalhes. O que eu percebi de imediato foi a banheira ENORME presente no banheiro acoplado ao quarto. Eu já queria entrar na banheira mesmo antes de decidir quem seria minha obstetra, não era uma vontade, era uma determinação! Entrei na banheira, água pelando, uma delícia! Foi como um abraço quente e forte que encobria todo meu corpo, eu nunca mais iria querer sair daquela banheira! Pois bem, o ritmo do trabalho de parto mudou, diminuiu... Na banheira, água muito muito muito quente, o que era muito muito muito bom. Porém, água quente = moleza, pressão baixa; então o Eduardo molhava meu rosto e jogava em minha cabeça uma água gelada. Ganhei até picolé de uva, que nem chegou a ser tomado por completo; diga-se de passagem que eu não havia comido nada neste dia (somente aquele pedaço da banana-que-foi-pelos-ares)... Quando a contração não estava estava lá eu relaxa imensamente, mas quando ela chegava era um tal de berros e chutes e água pra tudo quanto é lado... Ao longo desses vais-e-vens fui percebendo que quando eu conseguia conter essa força interior que se manifestava em movimentação louca, quando eu conseguia, ao invés de expandir, segurar meu corpo como se brincasse de estátua, ah! era muito melhor! Porém, só consegui executar essa “paralisia” de fato quando tive que tomar um antibiótico (um dos exames que fiz não havia ficado pronto, achamos melhor tomar o antibiótico). A enfermeira chegou e começou a prender qualquer coisa no meu braço, neste momento eu estava na paz da “des”contração e eu sabia, com toda certeza, que a dita cuja chegaria bem no momento da injeção: respirei muito, muito fundo, me foquei em segurar a dor quando ela chegasse...... deu certo! Contração e injeção no mesmo exato momento, não movi um dedo (a não ser o aperto ao segurar a mão do Eduardo – eu quase arranquei a mão dele, é verdade!). Daí em diante e não por muito tempo consegui me manter em meu casulo invisível – não sem muito esforço. Não por muito tempo porquê logo chegou o momento em que eu senti que queria fazer força; pois bem, comecei a fazer força. Deste momento em diante tudo mudou: as dores avassaladoras se transformaram na força motriz do meu “fazer força” e eu não as sentia mais. Não sei como é para as outras mulheres, mas para mim, o “pior” já tinha passado. A contração vinha, eu fazia força – esgotava meu corpo nesse fazer, conseguia dar duas ou três impulsões ao longo de uma contração, quando ela ia embora eu estava exaurida, sentia que nunca mais conseguiria fazer força novamente... eu praticamente dormia entre uma contração e outra. Até aí eu continuava vivendo o meu trabalho de parto, quase que apenas o trabalho de parto... ainda uma “grávida em trabalho de parto”.

Em determinado momento, num daqueles movimentos de força, Dudu me diz: “Força Amor, a cabecinha dele está quase saindo!” Foi a partir destas palavras ditas por ele que pela primeira vez eu deixei de vivenciar somente a gravidez e o trabalho de parto e pensei “O que eu estou fazendo? Meu filho está nascendo! Preciso ver! Preciso abrir os olhos!” Deste momento em diante tudo mudou. Logo antes de começar esse período de “expulsão” eu havia dado o meu maior berro: “NÃO AGUEEEENTO MAAAIS!! Nasce logo!!!” E a médica havia dito: “Quando você não agüenta mais significa que agora ele vai nascer.” E foi logo em seguida que começou o período de expulsão mesmo. Mas o ponto ao qual quero chegar é: até aquele momento eu queria que ele nascesse logo, só que pelo motivo:  não agüento mais essa dor! Depois da frase de Eduardo, bom... primeiro me lembrei que um dia uma amiga, bem mais velha, que já tem filhos (mais velhos que eu) havia me dito que no momento do parto dela,  bem perto de seu filho nascer e quando a exaustão do fazer força se aproximava, ela tirou forças sabe-se lá de onde porque tudo que conseguia pensar era que ele nascesse logo. Quando ela me contou isso e quando me lembrei da história durante o meu parto, atribuí um certo significado: ela queria que nascesse logo porque dói horrores e não via a hora disso tudo acabar! Assim como eu havia gritado. Segundo, me dei conta do meu engano: ela queria que o filho nascesse logo, assim como eu passei a querer naquele momento, porque era seu filho e quando essa idéia (filho) se torna algo concreto, e esta ali, a segundos de sua existência-fora-da-barriga, você não agüenta mais esperar!!! Veio uma contração, fiz muita força, senti ele “quase” sair, mas a contração acabou, a força cessou e a cabecinha dele tornou a voltar pro lugar de onde estava saindo. Naquele momento eu decidi: na próxima eu consigo! Veio a próxima contração, fiz toda a força do mundo, e mais uma vez, e mais outra, e a contração estava acabando e eu não estava conseguindo... e resolvi dar o último impulso, eu estava exausta, mas sei lá de onde tirei tanta energia: saiu a cabecinha por completo, depois só mais uma forcinha de nada e saiu o corpinho, estava lá, boiando na água da banheira, um pacotinho de gente, todo embrulhado em si mesmo – meu filhotinho! Seria pretensioso e irreal tentar descrever ou explicar a sensação daquele momento, quando ele saiu de dentro de mim, quando eu dei vida àquele pedacinho de gente... foi simplismente mágico...! O papai pegou nosso filhote trazendo-o boiando sobre a água e o colocou no meu colo, ficamos assim, abraçados, os três...

Apesar de ter estado vivo dentro de minha barriga durante 37 semanas e 2 dias e de já termos estabelecido – eu e o Dudu – uma relação de pais com aquele serzinho que não conseguíamos ver, apenas sentir os chutinhos e as cambalhotas – a idéia de como seria após o nascimento, a chegada de um filho, a existência de um bebê... eram muito abstratas, longínquas... a partir do momento *mágico* em que ele chegou ao mundo, eu pude sentir: havia me tornado MÃE!